Virada das mobilidades. Até alguns anos atrás, ouvir essa expressão nas universidades, grupos de estudos, seminários e congressos pelo país era uma novidade inequívoca. Mais do que isso, revelava um forte enraizamento de algumas tradições das ciências sociais brasileiras, apesar das diferenças institucionais. Hoje, porém, falar nela – e em John Urry (sociólogo britânico que elaborou o arcabouço teórico) ou Escola de Lancaster ou mesmo, de forma mais literal, em mobilidades – não tem esse mesmo efeito. E, se é assim, é principalmente por causa da professora Bianca Freire-Medeiros (FFLCH-USP).
Não apenas nas salas de aula, mas principalmente pelas iniciativas transversais a elas – coordena o UrbanData-Brasil, encabeça o grupo de estudos Mobilidades, Teorias, Temas e Métodos (MTTM) e organiza, a cada dois anos, uma escola de métodos em pesquisas sobre mobilidades na FFLCH-USP –, ela tem formado pesquisadores(as) que, por sua vez, têm saído pelo país renovando as lentes de percepção da vida social para além das grades analíticas já consagradas na Sociologia, Antropologia, Geografia ou Turismo, por exemplo. Assim, se a virada das mobilidades foi se tornando parte das discussões, também se deve a toda nova gama de jovens pesquisadores e pesquisadoras que, hoje, vão “levando a palavra adiante”, como ela costuma brincar.
Mestre em Sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ) e Doutora em História e Teoria da Arte e da Arquitetura pela Binghamton University, em Nova York (EUA), Bianca Freire-Medeiros é autora de vários livros que unem a criatividade própria da sociologia com a importância dos temas urgentes – tão cara para qualquer ciência social. A principal prova disso é, talvez, Gringo na laje: produção, circulação e consumo da favela turística (FGV, 2009), obra seminal para compreender desde a mobilidade dos signos até a concretude deles nas incursões de estrangeiros pelos morros do Rio de Janeiro – fundamental para os estudos urbanos.
Mas o que são mobilidades? O que elas mudam nas nossas vidas – e nas nossas pesquisas acadêmicas? Por onde começar? No primeiro conteúdo do site do MTTM, Bianca responde algumas dessas perguntas.
O que se observa da nossa realidade social hoje partindo da perspectiva das mobilidades que, de outro modo, não seria possível visualizar?
Um dos pilares dessa forma de olhar o mundo é justamente colocar em relação coisas que parecem, a princípio, dissociadas. Esse olhar relacional, que nos leva a pensar sobre os fluxos, os fixos e as fricções, sobre as dinâmicas de presença e ausência, de proximidade e distância, e de colocá-las em contato, talvez seja o maior ganho da virada das mobilidades.
E isso é novo?
Apesar de John Urry e o grupo do CeMoRe, da Universidade de Lancaster, ter falado em um “new mobilities paradigma” (“novo paradigma das mobilidades”), esses pesquisadores sempre reconheceram a importância do legado tanto de autores “clássicos”, como Georg Simmel, quanto do spatial turn (virada espacial) – e aqui estou pensando em nomes como Henri Lefebvre, Doreen Massey, Nigel Thrift, por exemplo. É falsa a impressão de que recusavam tudo o que havia sido dito antes. Na verdade, o que estava sendo apontado é que a tradição sociológica, cujo referente central tinha sido o Estado-nação, já não era suficiente para compreender os fenômenos próprios da globalização. Esse é o ponto de partida. Tudo o que veio depois foi a sofisticação dessa primeira percepção, elaborada pelas necessidades empíricas das pesquisas e das perguntas que o descentramento da nação permitiu. A primeira motivação, portanto, era superar uma sociologia baseada no que chamamos de nacionalismo metodológico. Essa é uma possibilidade instigante que o paradigma das mobilidades fornece. Quando suspendemos a correspondência imediata entre social, sociedade e nação, passamos a operar em diferentes escalas espaço-temporais e fazer essas conexões entre proximidade e distância, ausência e presença, fluxos e fixos no micro, meso e macro.
O que há de novo no paradigma das mobilidades, sobretudo a partir da obra de John Urry, que não encontramos na sociologia clássica — embora muitos autores, como você mesma disse, apontem os textos de Simmel já a partir da perspectiva móvel?
John Urry reconhece em Simmel a primeira formulação de uma ideia de sociologia das mobilidades. A questão é da ordem da intensidade: os fluxos de coisas, pessoas, imagens, informações assumiram uma proporção inédita no mundo contemporâneo – para o bem e para o mal. Os decoloniais e pós-coloniais também têm razão, claro, quando argumentam que o capitalismo e a colonização são impensáveis sem os deslocamentos todos pelo mundo. O ponto de Urry está em perceber um momento de inflexão desse fenômeno, no final dos anos 1980, que não tinha a ver só com a quantidade de coisas em movimento, mas também com a abrangência desses fluxos, atravessando os dois hemisférios, e o fato deles serem cotidianos e afetarem a vida de todas as pessoas: das que se movem e das que se encontram fixas.
Diz respeito ao cotidiano também.
Sim. É dizer que todos nós experimentamos essas dinâmicas da presença e da ausência, da proximidade e da distância, ou ainda que todas as nossas sociabilidades estão sujeitas a elas. Isso é novo. Para o “novo espírito do capitalismo”, as mobilidades socioespaciais são pré-condição e garantia de crescimento, prosperidade e produtividade. As mobilidades são um recurso ao mesmo tempo imprescindível e desigualmente distribuído.
É por isso, aliás, que não tinha como ser plenamente teorizado por Simmel. Quando ele estava descrevendo a metrópole como expressão empírica da modernidade, se referia ao relógio, ao trem, alterações tecnológicas de transporte e de comunicação que modificam os nossos sentidos de espaço-tempo. O que estamos falando hoje, porém, é de uma indistinção entre espaço-tempo – sobre a qual Doreen Massey, David Harvey e o próprio Milton Santos falaram tão bem. Nesse sentido, Urry nos ajuda a pensar sobre a “sociedade como mobilidade”, para usar uma expressão que ele mesmo cunhou.
Por quê?
Porque o que definimos como sociedade não pode mais estar referido ao que é estático. Nossas relações, sociabilidades e organizações institucionais estão mais dependentes de fluxos, mobilidades e de trocas que não são realizadas em copresença. O interessante é que, por sua vez, essas relações também são cada vez mais dependentes de infraestruturas, ou seja, de fixos e de imobilidades – não no sentido apenas das grandes infraestruturas – o aeroporto, a autoestrada –, mas também de coisas minúsculas, como o microchip sem o qual o avião, o computador, o celular, por exemplo, não podem cumprir sua missão de nos colocar em movimento. Em cada situação social, em cada contexto de pesquisa, precisamos estar atentos para observar o que pode e o que não pode se mover, como e com que meios. A ênfase está na mobilidade, mas esse é um jogo de idas e vindas entre fluxos e fixos, porque para perguntar sobre o que está se movendo é preciso também saber o que ou quem não está se movendo, quem está em pausa ou proibido de seguir.
Há, inclusive, um texto de Peter Adey que, no título, diz que "se a mobilidade é tudo, então ela é nada". Para além do artigo dele, como a perspectiva móvel entende e trabalha com o que não se move?
Dizer que nem tudo é móvel faz sentido, mas é uma crítica direcionada a uma premissa que nunca foi defendida pela virada das mobilidades. O ponto é que todo esse arcabouço foi construído a partir do tripé mobilidade-imobilidade-ancoradouro – ou seja, do que se move e do que não se move, dos fluxos e dos fixos – e das fricções, eu diria. Não existe movimento em si: o que há é um movimento localizado em uma das formas pelas quais as relações sociais são organizadas nas diferentes escalas em que o poder de controle das mobilidades se institui.
O que isso quer dizer?
Que nem todos se movem com a mesma velocidade ou podem ativar rotas confiáveis e seguras. Quem, de fato, tem capacidade de gerenciar seus deslocamentos, físicos ou virtuais, de acordo com seus interesses e desejos? O que eu noto é que há uma estratégia desses autores e autoras em colocar ênfase na mobilidade porque, na constituição das ciências sociais, a ênfase esteve no que era estável e perene, nas instituições referidas a um território circunscrito e autocontido – “a nação”, mas também “o bairro”, “a periferia”. A pergunta do paradigma das mobilidades é: o que muda nessa observação da realidade social se colocarmos foco também no que ou quem se move e no que ou quem é impedido de se mover? O que muda se olharmos os fenômenos nos seus percursos ao invés de isolarmos os pontos de chegada e partida? Sob as lentes das mobilidades, o que entendemos por migração ou turismo, por exemplo, se altera. O tema da desigualdade, tão caro à teoria social, também se altera radicalmente.
De que forma?
Bem, tem uma frase de John Urry que diz mais ou menos o seguinte: “as iniquidades sociais são espaciais e resultam de formas altamente desiguais de acesso que, por sua vez, se relacionam com vários tipos de mobilidade”. Quando ele fala em “vários tipos de mobilidade”, está colocando em jogo não só as mobilidades dos corpos e das coisas, mas também as mobilidades das imagens e das informações. Cada um de nós, no nosso cotidiano, sabemos que as possibilidades de participação nesses movimentos são repartidas de maneira extremamente assimétrica, porque os acessos aos meios de transporte e às estruturas de dados e comunicação são extremamente desiguais. Em geral, essas infraestruturas estão concentradas em espaços privilegiados. As mobilidades são sempre racializadas e generificadas. Um corpo feminino, um corpo trans, um corpo com deficiência física, alguém que esteja incapacitado de utilizar meios digitais, não tem o mesmo acesso ao que uma cidade como São Paulo, por exemplo, oferece a um corpo branco, masculino e “saudável” e “letrado”. O problema é que o acesso a essas redes físicas e virtuais se tornou crucial para a nossa inserção nas redes de poder próprias aos universos valorizados da cultura e da economia eletrônica global.
Muitos estudantes e pesquisadores chegam à literatura das mobilidades a partir dos textos de Bauman. Por quê?
Urry reconhece que a primeira formulação, por assim dizer, que coloca a mobilidade como um organizador das desigualdades contemporâneas foi feita por Bauman. Foi ele quem escreveu sobre as desigualdades estruturais geradas pela possibilidade de arbitrar ou não sobre o próprio movimento. Essa formulação fica mais clara na dicotomia que ele propõe entre “turistas” e “vagabundos”. É uma metáfora que diz respeito a quem vai para que lugares, com quem, por quanto tempo e, o que é fundamental, se a pessoa tem ou não um lugar para o qual voltar. Isso em várias escalas – e aí aparece outro ganho que vem do paradigma: operar nas passagens de nível, que permite observar tanto movimentos esporádicos, como os migratórios e turísticos, como os cotidianos. Na pandemia de covid-19 isso ficou escancarado. Vale lembrar que, do pós-guerra até meados dos anos 1980, a sociologia tratou o conceito de “mobilidade social” sempre a partir do seu aspecto socioeconômico. Do ponto de vista da sociologia da estratificação, falar em mobilidade social é falar em mudanças nas hierarquias de riqueza e prestígio, nas relações verticais, em que as pessoas vão subindo ou descendo nas escalas. Quando se começa a notar que estar em movimento – no sentido de percorrer distâncias horizontais, quer no mundo físico ou virtual – é uma prerrogativa, isto é, é uma obrigação e um luxo ao mesmo tempo, não é possível pensar mais apenas nos eixos socioeconômicos. Bauman não formulou isso a fundo, mas foi quem trouxe a ideia da mobilidade como um elemento estratificador muito poderoso e central.
A sociedade líquida que ele descreve passa por aí?
Essa é uma imagem poderosa para falar dos fluxos. O problema dela é a falsa impressão de que não existe imobilidade nem infraestruturas, ou seja, que tudo é fluído, sem fricções. Bauman prestou um grande serviço e, ao mesmo tempo, um grande desserviço (risos). Olhar dessa forma é cogitar um mundo sem fronteiras, em que tudo está em movimento, como se houvesse uma equivalência entre fluxos de capitais e os demais fluxos. Então, se o dinheiro se move rapidamente, é como se tudo também se comportasse assim. Sabemos que isso não é real.
Muitos campos de estudos têm se relacionado com intensidade com a literatura móvel, como o Turismo ou mesmo a Sociologia. Onde você percebe que o paradigma ainda não chegou com força?
O Turismo incorporou muito o conceito de mobilidade que nós usamos em seus estudos. O professor Thiago Allis [EACH-USP] fez esse levantamento, inclusive. A mesma coisa aconteceu nos estudos urbanos de maneira geral – incluindo Geografia e Antropologia, por exemplo. Isso não quer dizer que todo mundo que fala em mobilidade está se referindo a ela da mesma forma. Se a gente fizer uma nuvem de palavras e comparar o uso do conceito, perceberíamos bem a utilização dele, mas não tanto o entendimento. No Turismo mesmo, a expressão “mobilidades turísticas”, que aparece muito hoje em dia, seria facilmente substituída por “turismo” apenas, quando, na verdade, falar em mobilidades turísticas é falar de outra coisa. Do ponto de vista do paradigma das mobilidades, estamos falando de uma grade analítica, de uma episteme.
A superficialidade de entender como mobilidade simplesmente qualquer coisa que se move.
Exato. Essa é uma confusão de ordens metodológica e analítica também. Se confunde aí, em primeiro lugar, uma forma de olhar o mundo e seus objetos – de que, para ser uma pesquisa de mobilidades, é necessário que se aborde algo que se mova, o que não é verdade, porque está implícita nessa percepção uma confusão entre a grade analítica e a natureza do objeto. Depois tem esse erro de compreender que, se a pesquisa é sobre tudo o que estamos falando aqui, então quem vai a campo precisa obrigatoriamente se mover também. Isso também não é verdadeiro.
E como resolver essas confusões?
Retomando a distinção. Quando falamos em mobilidades, não estamos nos referindo nem a objetos específicos em movimento nem a um método que inclui obrigatoriamente o movimento do pesquisador(a), mas de uma forma de notar o mundo de maneira relacional, de entender o movimento não como o ponto de partida e o de chegada, mas do que tem sentido, propósito e é passível de representação simbólica. Essa é a riqueza que estava no Simmel. Isso gera muita confusão, de fato. Muitas vezes, alçar a ideia mobilidade carrega um sentido metafórico, não conceitual, falando dela da mesma forma que falamos sobre fluxos, circulação, rede, liquidez. Quando isso acontece, tudo fica nublado mesmo.
Mas como fugir da analogia superficial de que se trata, de forma inicial, de pessoas se deslocando de um lugar para o outro. Isto é, como as mobilidades conseguem ir além desse deslocamento inicial?
O melhor recurso é pensar nas mobilidades como sistêmicas, como parte de um sistema complexo em que elas estão sobrepostas. Vamos falar do turismo, por exemplo: ele é deslocamento de pessoas, mas também é de imagens. O que Urry formulou em Olhar do turista foi justamente que o movimento de imagens e da imaginação antecede o movimento físico. Nós só viajamos para lugares onde nós já nos imaginamos e que, por isso mesmo, desejamos. Mais do que isso, nós só nos deslocamos para esses locais porque eles chegaram antes até nós – em formas de narrativas, em imagens, em textos. Observando assim, o turismo é composto por uma série de atores sociais e de arranjos sociotécnicos que não se restringem ao mundo turístico. São publicitários, o aparato midiático, os guias e muitos outros agentes que constroem determinados lugares como os que devem ser desejados. Daí a centralidade da fotografia, por exemplo.
Como operar isso dentro das nossas pesquisas?
Antes de mais nada, a gente precisa desvincular os pressupostos que associam necessariamente os métodos móveis tanto à mobilidade da pesquisadora ou do pesquisador quanto ao uso de dispositivos tecnológicos. A virada das mobilidades fomentou algumas inovações metodológicas, mas não partiu do zero. As técnicas devem ter um foco comum: compreender o modo como as diversas mobilidades de pessoas, objetos, políticas, imagens e ideias fazem parte de redes e conexões localizadas de forma variável no tempo e no espaço, modelando modos de vida específicos. Para ficar no mesmo exemplo: quando recortamos uma experiência específica do turismo, é preciso ter clareza de que ela está relacionada com aspectos migratórios, das mobilidades cotidianas, da circulação das imagens, etc. O que nossas pesquisas fazem é dar conta do entrelaçamento entre as escalas seguindo os entes em movimento, ao mesmo tempo em que ficamos atentas aos fixos – também às pausas e às imobilidades -- e às fricções entre eles.
Quais livros são essenciais para se ler e entender o paradigma das mobilidades?
Eu começaria dizendo, claro, o Olhar do turista, de John Urry, cuja edição 3.0 foi traduzida em português recentemente. Mobilities, também de Urry, é um clássico, mas infelizmente só está disponível em inglês. Há duas coletâneas que recomendo fortemente: Antropologia das mobilidades, organizada pela professora Candice Vidal e Souza, da PUC-MG, e Brazilian Mobilities, cuja organização ficou por conta de Maria Alice de Faria Nogueira (ECO-UFRJ) e Camila Moraes (Unirio). Essas três pesquisadoras fazem parte do MTTM e conseguiram agregar pessoas muito interessantes nesses projetos editoriais. Pensando menos em livros e mais em autoras, penso imediatamente em Saskia Sassen e Mimi Sheller. E, adiantando a conversa, eu também indicaria uma obra que será publicada em 2023: o segundo volume de Términos clave para los estudios de movilidad en América Latina, de Paola Jirón, Guillermo Giucci e Dhan Zunino Singh, que apresenta o vocabulário básico e abre a porta para uma perspectiva latino-americana.
Para finalizar, se o paradigma tem mais de duas décadas de "existência", qual é a discussão teórica mais relevante sobre ele hoje?
Há dois fatores que pesam nessa realidade: o pertencimento institucional e o continente de referência, ambos atravessados agora pela pandemia – que transformou a mobilidade em agenda pública e, com isso, alterou as discussões e os percursos intelectuais. Mas eu diria que há uma receptividade muito grande na Geografia e na Antropologia, o que não acontece tanto na Ciência Política. Da mesma forma, as temáticas urbanas são muito abertas. O que é importante, para mim, no entanto, é a discussão das consequências das mobilidades.
Como assim?
É pensar nos efeitos de tudo isso para as sociedades construídas em torno e dependentes do petróleo, por exemplo. No fim da vida, Urry estava preocupado com isso, escrevendo muito sobre os futuros sociais possíveis em uma sociedade que ele chamava de “pós-carbono”. Se a gente constatar que a imposição da mobilidade como elemento organizador da vida social foi crescendo, e que ela atravessa toda a sociedade hoje em dia e que esse estilo de vida ameaça o planeta, o que fazemos? As sociedades contemporâneas foram erguidas a partir do carro, da ideia de que ser veloz, de que viajar, enfim, todas essas mobilidades intensas são bem-vindas. Mais do que isso, são signos que traduzem, que posicionam os sujeitos “bem-sucedidos”. Agora é preciso descontruir esses valores. Mas é preciso mesmo? E para quem? Nós vamos dizer agora que lugares do mundo onde esses recursos de viagem de férias, da aquisição de um carro particular, práticas de alto consumo de carbono, não foram ainda experimentados, não poderão sê-lo? Essas são decisões difíceis, são políticas, acima de tudo, e não devem ser capturadas pelo discurso da solução tecnológica pura e simples. Então, precisamos redefinir, repactuar, o que constitui a boa vida móvel.
